A Conversa
Não era convite, era convocação para uma conversa amigável.
Tinha dia e hora marcada, no meio de uma tarde de terça feira, na sala do superintendente.
O homem tinha a fama de nunca ter lido o manual de como fazer amigos.
Cultivava o inconveniente hábito de afrontar e humilhar as pessoas, incluindo os seus colaboradores mais próximos, e de preferência, fazia isto em público.
Dava ordens e não gostava de ser contestado, usava as palavras autoridade e autoritarismo, com se fossem a mesma coisa.
Era um homem no outona da carreira, ocupava o posto máximo na instituição, e seria este, o seu último cargo antes da aposentadoria.
Confúcio, o grande pensador chinês, certa vez foi indagado por um governante:
“Mestre, o que devo fazer para que todos os súditos obedeçam às minhas ordens?”
“Dê ordens, que pelo bom senso, possam ser obedecidas”, respondeu o pensador.
Aquele grupo de jovens médicos, usava roupas brancas, e estetoscópios circundando os pescoços. Os sapatos ainda estavam alvos, mas não tardaria, teriam as manchas vermelhas de antissépticos e mertiolates nos pés, testemunhando as longas jornadas em plantões e curativos.
Éramos médicos residentes de primeiro ano, iniciando a longa jornada de aprendizado prático intensivo, sonhando com um diploma de especialista pendurado na parede, em um consultório em bairro nobre.
Eram tempos de poucas leis, sem regulamentação, com carga horária de trabalho ao gosto do chefe, sem espaço para questionamentos.
Quanto ao sustento, cada um que se virasse como pudesse. A bolsa mal dava para o aluguel de uma quitinete.
Para garantir algum ganho, as opções eram as mais variadas, quase sempre em trabalhos na periferia da cidade, em condições deploráveis, e às escondidas, pois o regime vigente na residência médica exigia dedicação exclusiva.
Este era o motivo da conversa convocada pelo superintendente.
Os jovens médicos foram convocados em grupos de quinze, segundo uma escala.
Assim que o primeiro grupo compareceu, a notícia do encontro se espalhou e gerou grandes preocupações.
O superintendente havia feito uma breve exposição seguida de ameaças aos que não cumprissem o determinado. Eram poucos minutos de discurso, sem espaço para argumentos ou contestações.
No dia aprazado, chegamos pontualmente na antessala do superintendente. A secretária estava agitada e pediu ao ajudante de ordens que nos conduzisse à sala de reuniões, e orientou que deveríamos aguardar o homem que estava ocupado, naquele momento, ao telefone falando com o palácio.
Fomos conduzidos para o final do corredor, onde havia uma grande sala de reuniões, com uma mesa longa, circundada por poltronas pretas estofadas, com capacidade para acomodar confortavelmente vinte pessoas.
Dentro da sala havia um mestre de cerimônias, em traje de gala, com paletó social branco, camisa de algodão, colarinho rígido e botões ocultos. A calça era preta, de corte reto impecável. Um colete ajustado ao corpo completava o ar elegante. Tinha ao seu lado um garçom devidamente paramentado.
No canto da sala espaçosa havia um serviço volante de canapés frios e quentes: queijos com favo de mel, croquetes de jamón serrano, bolinhos e quiches, além de opções vegetarianas. Mais ao lado havia pequenas garrafas de água mineral, sucos naturais servidos em copos de cristal, e um serviço de café.
Um a um, entramos na sala de reuniões, e o mestre de cerimônias pediu que nos acomodássemos e ficássemos à vontade, pois o superintendente estava terminando uma tarefa e viria em breve falar conosco.
Como o homem demorava mais que o previsto, o garçom iniciou o serviço. As bandejas de canapés e as taças com sucos, circularam várias vezes ao redor daquela mesa, para deleite daqueles jovens, com apetites de adolescentes.
Muitos de nós ainda mastigavamos os quitutes, ou tinhamos os copos de suco junto aos lábios, quando o superintendente irrompeu sala adentro, acompanhado da secretária fatigada.
O homem ficou roxo de raiva. Proferiu um rosário de palavrões e xingamentos, ora dirigindo-se à secretária, ora ao mestre de cerimônias, e ao ajudante de ordens.
Ordenou que saíssemos imediatamente daquela sala.
Neste momento um funcionário chegou correndo e informou:
“Superintendente, o governador e sua comitiva estão subindo”.
No imaginário coletivo, a jornada de um médico é algo glamuroso, ou pelo menos era até faz pouco tempo.
Em quase meio século circulando pelos mesmos espaços do grande hospital, eu tive o privilégio de ser testemunha de acontecimentos memoráveis. Histórias comoventes, pungentes, ou simplesmente patéticas, desfilam em minhas memórias.
Pessoas que conheci e que foram fundamentais na construção do meu entendimento de mundo. Pessoas adoráveis ou deploráveis. Todas elas exemplos formidáveis para serem seguidos ou evitados.
Assim como a inclinação da vela faz o barco navegar no sentido desejado, independente da direção dos ventos, algumas pessoas são exemplos que guiam a nossa trajetória, muitas vezes pelo avesso.
“Filhos da Babilônia” é um livro de contos que publiquei recentemente. É uma coletânea de acontecimentos que vivenciei ao longo de minha carreira de estudante, médico e professor de medicina. É a forma que eu encontro para registrar as coisas importantes que passam muitas vezes desapercebidas ao nosso redor.
Este conto não está no livro, mas você poderá ler outros tantos, que lá escrevi.
“Filhos da Babilônia” está disponível no site da Editora Patuá, e no site da Amazon.com



Prof. Jesus, fiquei com medo só de imaginar a tal conversa... Parabéns por mais essa crônica.
Estou curiosa para ler o livro. Sugiro que deixe os links aqui e no e-mail para os assinantes. Daí fica a só dois cliques de distância para comprar.
Ficou um gostinho de quero mais!
Parabéns pelos detalhes que descreve e os adjetivos que usa; a gente lê o texto com a sensação de que está vendo a pintura de um quadro.