Cariati
Eu pensava em fugir da correria do final do ano. Filozinha, a minha companheira em tudo, sugeriu Cariati. Fazia tempo que ela estava saudosa para visitar a cidadela dos seus genitores, no sul da Itália, por onde passamos algumas vezes de forma rápida e superficialmente, já fazia muito tempo.
Filozinha trocou mensagens com Luigi, um primo radicado na Alemanha e informou sobre o nosso projeto de viagem. Ele de pronto indagou “o que vocês vão fazer lá, não tem nada”. Isto mesmo respondemos, vamos lá, fazer nada.
Eu tinha um plano B, caso a iniciativa se revelasse um mico: levaria o Kindle carregado de novos títulos para ler, a começar por “Oração para Desaparecer”, de Socorro Acioli, muito apropriado para os meus propósitos.
Algumas semanas depois Luigi mandou uma mensagem dizendo que também iria, fazer nada junto a nós. Ele mantém uma pequena casa fechada no centro histórico, como faz todo expatriado, que sonha um dia voltar à terra natal, e nunca voltam.
Chegamos à porta do Hotel Mascambruno, único estabelecimento com nome de hotel naquela cidade murada. Leonardo estava na porta para entregar as duas chaves: uma para abrir o hotel, e outra para a porta do quarto.
Como seríamos os únicos hóspedes naquele período, informou que não haveria serviços, a não ser a visita de Jéssica, uma jovem falante e tatuada, que faria a limpeza em nosso aposento, uma vez por dia. O desjejum, sugeria ele, poderia ser feito na Gelateria Fortino, localizada sobre a muralha, em um mirante com a melhor vista, onde o azul do mar Jônico se funde com o azul do céu.
Foram dias de andanças pelas ruelas estreitas, no labirinto das casas de pedras com tramelas nas portas, e mulheres vestidas de preto, pendurando toalhas, junto com roupas íntimas nos varais dos balcões. Minha jaqueta azul royal da North Face, fazia contraste com os casacos pretos uniformes, não deixando dúvidas de que erámos forasteiros.
A cidadela, quase deserta durante o dia, ganhava vida ao anoitecer, dentro ou no entorno da catedral. Um concerto de piano de um expatriado que retornava para os festejos natalinos, o lançamento do livro do médico oncologista, que fez carreira na América, e agora, acometido do mesmo mal que sempre tratou, retornava para aproveitar os seus últimos dias, com admirável bom humor.
Na noite de Natal veio gente de todos os cantos para apreciar o “Presépio Vivente”, uma encenação em que os moradores se postam defronte às casas caracterizados, como personagens dos tempos do nascimento do menino.
O senhor Fortino veio com a esposa me saudar, e se oferecer para ser o meu anfitrião, caso eu pudesse retornar no próximo ano. Conduziu-me para visitar as suas casas restauradas e equipadas para receber visitantes.
Uma casa muito pequena, de um só ambiente e uma pequena janela sem vistas para o mar, que ele não me recomendava. Esta casa é visitada esporadicamente por um artista do norte, que permanece o tempo todo recluso escrevendo, disse o anfitrião. Escolhemos uma outra, perfeita para um casal e combinamos voltar no ano seguinte.
No ano seguinte, Luigi mais uma vez, veio fazer nada conosco, deixando a família na Germânia. Da cidadela murada podíamos ver o azul do mar abaixo, e os picos nevados das montanhas da Sila no lado oposto. O céu limpo e um frio discreto convidava para incursões nos arredores, por vilarejos de casas abandonadas, com laranjeiras repletas de frutos amarelos esquecidos.
Aos poucos aqueles vilarejos começaram a me ser familiares: Em Campana havia os melhores doces de massas folhada crocantes, com direito a um solo de gaita de Giovanni, o proprietário.
Em Terravechia, eu caminho numa manhã de sol, e sobre a minha cabeça uma senhora estende uma toalha no parapeito do balcão. Digo-lhe buongiorno e pergunto quantas pessoas habitam aquela cidade. Ela sorri e me mostra os dedos das duas mãos espalmadas, menos um dedo.
No caminho da montanha, sento-me para apreciar a Pedra do Elefante, uma formação rochosa que lembra o animal. Um senhor de chapéu-coco, sai do carro e vem puxar conversa: é um professor aposentado de Torino, viúvo, que se ocupa em revisitar lugares de sua juventude. Encontrei-o outras vezes em lugares diferentes.
A muito custo terminei o livro da Socorro Acioli, sentado ao sol, ao lado da muralha e tendo como companhia, uma cadelinha malhada, que vinha sentar-se aos meus pés. Nossa casa virou ponto de visitação, de parentes pouco conhecidos, e novos amigos. Michele, um caçador de Cogumelos Porcini nos acompanhou para uma incursão à Sila, até o colarinho de neve branca da montanha.
Por saber que somos médicos, um velho engenheiro aposentado, que mora numa casa suntuosa junto ao mar, mandou a filha Brigida perguntar se tínhamos um bom analgésico para dores ciáticas. Filozinha, sempre prudente, marcou uma visita para levarmos a pequena sacola de medicamentos que carregamos nas viagens. Encontramos o homem sentado junto à lareira, fumando um cigarro atrás do outro. Não parecia estar com dor. Desconfio que aquilo foi só um pretexto para nos ter em sua casa, e nos convidar para o almoço no dia seguinte, com as pastas feitas à mão pela moça.
Atrevi-me a pedir para participar da feitura das massas. No dia seguinte, depois de um almoço grandioso, retornei para casa com a roupa toda salpicada de farinha, e comprei um mattarello (pau-de-macarrão), na feira dos marroquinos.
Na semana próxima foi a minha vez de preparar o almoço, uma moqueca baiana. O azeite de dendê e o leite de coco eu havia levado, mas onde encontrar um bom “spigola” (robalo), era a questão.
Os pescadores não costumam ir ao mar em época de Natal, informou-me a mulher da peixaria. Mas remexendo na câmara frigorífica encontramos alguns spigolas mirrados. Filozinha preparou as caipirinhas, e somente naquele dia dispensamos as jarras de vinho, comprado a granel em garrafas pets no “negozio di alimentari” ao lado da catedral.
E por falar em vinho, eu devo dizer que feriado na Itália não é coisa séria, mas dia santo é. Esqueci-me de abastecer a dispensa com vinho na véspera da Epifânia (o 6 de janeiro, dia de Reis). É dia santo, e nenhum “negozio” abre nesse dia. Consulto o vigário na frente da igreja e indago, onde posso conseguir vinho? Ele fica pensativo, pede que eu espere, entra na igreja e retorna minutos depois, com um garrafão pet de com vinho. Proponho pagá-lo, mas ele recusa, isto é um “regalo”, completa.
Fortino me fez ver outra casa que estava restaurando, e que ficaria muito honrado se eu ali ficasse na minha próxima vinda. Nos meses que sucederam enviou-me fotos do teto com vigas de madeira, o vitral com motivos florais no mezanino, a cozinha americana com utensilios novos em folha, e uma oferta generosa quanto ao pagamento. Não tive como recusar.
Pelo terceiro ano consecutivo estava eu novamente aprontando a mala para a imersão cariatesa. Gaetano me escreve pedindo para eu não esquecer os condimentos do peixe. Acrescento o dendê, o leite de codo e uma garrafa de cana na bagagem. Mas informo que os peixes de bom tamanho seria responsabilidade dele. No dia seguinte ele me envia uma foto do peixe na areia da praia, colocado ao lado do seu pé, para eu me certificar do tamanho. Quantos destes você precisa, pergunta. Encomendo quatro.
“Os ventos do norte não movem moinhos”. Os versos cantado por Ney Matogrosso, em Sangue Latino, é uma metáfora para dizer que os países lá de cima, não devem dar palpites no daqui de baixo do equador.
Se estes ventos movem ou não moinhos eu não sei, pois nunca ví um moinho de verdade, a não ser aquele cenográfico que tem na entrada de Joinville. Mas eu descobri que os ventos do norte trazem muito frio e muita chuva, e foi isso que aconteceu no dia da minha chegada. Frio sempre, chuva forte repentina, intercalada com períodos de céu azul.
A casa estava perfeita, Fortino veio orgulhoso entregar a chave, e saudar-nos pessoalmente. Era dia de feira dos marroquinos, ao lado da muralha, uma ótima oportunidade para abastecer de queijos, frutas e os todo tipo de “salsichas” (é assim que eles chamam os embutidos). No armário da cozinha havia utensílios nunca usados, incluindo um jogo de panelas de diferentes tamanhos. Da cama imensa no mezanino, podia-se ver o mar através do vitral florido, nos intervalos da chuva.
Acordo de madrugada e meu pé toca uma poça d’agua ao lado da cama. Da viga de madeira trabalhada no teto, uma goteira desprende um pingo ritmado. Minha companheira se aborrece, mas eu informo que está tudo bem, pois temos uma goteira e três panelas, ruim seria se fosse o contrário.
Ela se aborrece mais ainda, e diz que eu sofro da síndrome de Polyana, a personagem de Eleanor H. Porter, que sempre achava que estava tudo bem, mesmo quando não estava. Discordo mais uma vez, não é polyana, é estoicismo, uma corrente filosófica que nasceu com Zenão de Cítio, 300 anos antes de Cristo.
O homem passou anos no mar coletando púrpura tíria, um corante luxuosíssimo e valioso, e esperava fazer fortuna. Mas o seu navio naufragou quando chegava próximo ao porto.
O que é pior do que perder tudo, a pouca distância do porto, perguntou Zenão?
Perder-se a sí mesmo, concluiu.
Nas coisas do mundo têm as que dependem de você e as outras, em que você nada pode fazer. Esta é a Dicotomia do Controle. Um coisa ruim pode ficar pior ainda, se você gastar suas energias inutilmente, tentando resolver o irresolvível. Estava fundado o estoicismo.
Sêneca, um pensador romano, foi o grande entusiasta do estoicismo. Ele teve o azar de ser contemporâneo de outro grande pensador – Jesus Cristo – que tinha habilidades que ele não tinha: Cristo era um grande influencer, andava sobre as águas, transformava água em vinho, ressuscitava mortos, e tinha muitos seguidores. Sêneca era um pensador, adepto do conhecimento, e talvez por isso pouca gente o conheça.
Eu gosto dos dois, e lamento que ambos tenha tido o mesmo fim: um morreu na cruz sob os olhares complacentes do romano Pôncio Pilatos, e o outro foi obrigado a se suicidar por ordem de Nero.
Mas o que isto tem a ver com a goteira na casa nova do senhor Fortino? Tudo.
Quando ficou sabendo da goteira, o meu anfitrião quase teve um infarto. Pediu mil desculpas e disse que iria convocar “súbito” os “muratori” para subir no telhado e fazer os reparos. A muito custo convenci o pobre homem a abandonar a ideia.
Um coisa ruim pode ficar ainda pior, diria Sêneca.
Imaginem um muratore despencando do telhado sobre a minha cama. Filozinha concordou comigo, discordando entretanto, nos fundamentos filosóficos.
Para preparar a moqueca eu carecia de apenas uma panela, a outra ficaria sob a goteira, com a vantagem de nos informar o ritmo da chuva, numa espécie de relógio das águas. Por que não?
Se Salvador Dali pintou relógios que mais pereciam pizzas molengatas, eu me propunha a criar um relógio da chuva, com a panela na goteira.
A literatura está cheia de fenômenos meteorológicos interferindo nas histórias. Quando o português chegou ao Brasil em mil e quinhentos, estava chovendo. Então ele vestiu o índio. Fosse uma manhã de sol, o índio é que teria despido o português. Esta é a fantasia improvável, contada por Oswald de Andrade, no seu poema “Erro de Português”.
Volto ao trabalho numa manhã de segunda feira. Chego ao hospital para a primeira cirurgia do ano. A enfermeira informa que haverá um atraso de pelo menos duas horas no programa – o hospital está lotado.
Imagino Sêneca sussurrando nos meus ouvidos, a Dicotomia do Controle: “não tem nada que você possa fazer”.
Se é assim, vou economizar minhas energias e pegar um expresso na sala dos médicos.
Duas jovens médicas conversam animadas ao lado da máquina do café. Uma delas tem uma bota ortopédica na perna esquerda, e apoia o corpo numa bengala.
Aproveito a demora da máquina preparando o meu café, para ouvir um pedaço da conversa delas, sem querer parecer intruso: “Ah você precisa ver que maravilha é aquela estação de esqui, as fotos estão todas no meu instagram!”.
Penso na minha panela-relógio da goteira. Não me atentei para tirar sequer uma foto para colocar no instagram.



Obrigado Heloisa pela leitura.
O livro está sendo finalizado na editora.
Devemos marcar o lançamento ainda neste semestre.
Vamos avisar por aqui.
Espero você.
Gostei muito,obrigada!