O Bicho
Este texto é uma obra de ficção. Escrever é o instrumento que tenho, para tentar compreender o que parece incompreensivel.
Quando marcou a inauguração da sua nova casa, Misael queria que fosse um evento de grande sofisticação, com experiências memoráveis, e que demonstrasse o bom gosto, e o estilo de vida da família.
Contratou curadoria artística e de design, tudo pensado para gerar impacto. Celina cuidou para que os jardins, integrados à piscina aquecida em continuidade com a área social, tivesse flores naturais assinadas por um paisagista conhecido, com arranjos grandes e sofisticados, que trouxessem frescor, aromas leves e diferentes com o passar das horas.
No contrato do serviço de valet parking, para recepcionar os veículos dos convidados, Celina fez constar que os profissionais manobristas deveriam trocar de camisas a cada hora, usar um perfume discreto previamente acordado, e jamais entrar nos automóveis com a roupa suada.
Houve buffet gourmet e bebidas premium, ilhas interativas com coquetéis personalizados, música ao vivo, um quarteto de cordas, um saxofonista e um DJ curado para criar a atmosfera perfeita.
Misael programou um “Tour da Casa”, e fez questão de mostrar as adegas climatizadas, a academia equipada, home cinemas e áreas de lazer, muitas delas com automação de som e luz.
No final da festa, os convidados receberam lembranças personalizadas, com itens de decoração, vinhos e aromas exclusivos da casa.
“O luxo sussurra, ele não grita”, murmurou Celina extasiada, olhando para Misael à porta, depois que partiu o último convidado.
Misael se gabava de ser um empreendedor de sucesso, de ter a combinação perfeita de disciplina rigorosa, aprendizado contínuo, resiliência mental, alta produtividade, inteligência estratégica, gestão do tempo, hábitos consistentes e saúde. O personal trainer concordava em número e gênero com tudo o que ele dizia.
Sua casa era também o show room do seu principal negócio, construir casas sofisticadas, para pessoas diferenciadas. Ganhou espaços em programas de tv, passou a fazer palestras motivacionais em clubes, igrejas e instituições, isto antes de aceitar um cargo cobiçado na administração municipal.
No princípio Celina o acompanhava. Organizou grupos de mulheres, para promover bem-estar e aumentar o networking de qualidade. Essas atividades focavam no conhecimento, na experiência e na presença elegante. Fazia visitas a exposições de arte contemporânea ou clássica, estreias no teatro, encontros de literatura, biografias ou temas de liderança.
Misael e Celina eram figuras de destaque em apreciação técnica de rótulos em vinhedos ou clubes especializados. Ela recebia assessoras de estilo, e consultoras de moda, em sua própria casa, ao mesmo tempo em que formou um grupo para a criação e harmonização de aromas. Sua residência era referida nas publicações sociais como a “casa das flores”, ou a “casa dos perfumes”.
Celina adorava e colecionava perfumes. Da sua mãe trazia as lembranças do Chanel número 5, um clássico floral aldeídico. No seu closet escuro, protegido da luz e da umidade, havia Angel, Light Blue, e Shalimar, um perfume oriental centenário, famoso por suas notas de baunilha. O seu preferido, entretanto, era o J’adore, da Dior, com notas de jasmim e rosa.
Os compromissos de Misael aumentavam exponencialmente, principalmente depois que passou a cogitar a candidatura para federal. Enquanto a duas crianças eram pequenas, Celina as acompanhava até a porta da escola pela manhã. Do lado direito do motorista, no banco do passageiro do Volvo XC90 Ultimate Dark, ia Janaina, a fiel baby-sitter, vestida com um “jogger“ discreto, de linhas retas e cor branca com detalhes em tons pastéis.
Defronte ao portão da escola, Janaina descia, apanhava uma criança e depois a outra, e entregava para a preceptora. Da janela do automóvel, Celina acenava com a mão direita e sempre repetia a mesma frase: “mamãe te ama”.
O casal participava juntos em muitos encontros, mas quase nunca ficavam a sós. E isto só se fez aumentar depois que Misael passou a sonhar com o cargo federal.
Aos quarenta anos, Celina se deparou, diante do espelho, com uma ruga incômoda. Providenciou horário em dermatologista no mesmo dia. À noite, enquanto Misael participava da reunião do partido, Celina sozinha, foi até a sala de home theater dedicada, e assistiu pela enésima vez a cena em que Al Pacino interpreta Frank Slade, o tenente-coronel amargo e cego, que convida Donna para dançar um tango, a jovem mulher que está esperando o namorado, no filme Perfume de Mulher. Donna está insegura, diz que tem medo de errar. O homem insiste: não há erro no tango!
Celina sentiu um calafrio, que lhe percorreu a espinha até os pés. Lembrou do dia em que conheceu Misael, no piquenique no parque nos tempos do colégio, o primeiro beijo na brincadeira de “caça ao tesouro”. Depois as aulas de culinária a dois, as degustações de vinho, as viagens de fim de semana, e até a infecção urinária depois de uma noite de sexo tórrido. Pareciam retratos do passado, pendurados em uma parede fria.
Reviu mais duas vezes a cena do tango, e continuou ouvindo repetidamente, no Spotify a música “Por una Cabeza“, de Carlos Gardel e Alfredo Le Pera. Na música, a paixão compulsiva, como a atração por mulheres é comparada ao vício em apostas de cavalos. A letra narra a frustração de perder por uma margem mínima (uma cabeça), retratando a vida, o jogo e o amor, com todos os seus percalços e riscos.
Naquela noite Celina não conseguiu dormir. A ruga no espelho, que a dermatologista garantiu ter resolvido de imediato, continuava presente, agora do lado de dentro dela, grudada profundamente no seu cérebro.
Fechou os olhos muitas vezes, e um carrossel de imagens desfilaram, luzes e perfumes percorreram os seus pensamentos. Pétalas de rosas, aromas de lavanda ou baunilha pairando no ar, música e dança com rostos colados. Depois, ela se viu sentada em uma varanda próxima da janela, olhando as estrelas, e a vista da cidade ao longe, a conversa em tom baixo, trocando confidências e risadas com um namorado imaginário, sob a luz da lua.
“Por una cabeza“ repetiu baixinho em pensamentos.
Na tarde seguinte confidenciou a uma amiga, que não estava se sentindo bem. Estava confusa e preocupada, e aquela música havia ficado como um chiclete grudado na sua memória.
Deve ser o princípio de menopausa, ou início de depressão, respondeu a amiga, e sugeriu que ela consultasse a doutora Marcela, sua médica, e lesse o livro “O demônio do meio-dia”, isto vai lhe ajudar.
Em uma madrugada insone, Celina se pôs a contemplar o seu jardim pela janela do quarto de dormir. Por um instante teve a impressão de ver um rato gigante subindo pelo troco do jasmineiro, a sua planta predileta.
O perfume do jasmim com a sua fragrância floral intensa, doce, exótica e sedutora estava lá. Mas nada daquilo combinava com aquele bicho horrendo subindo por entre galhos e folhas.
Tentou, no dia seguinte, contar o ocorrido para Misael, que desacreditou: “os únicos bichos nessa casa, são as minhocas que você cria na sua cabeça”.
A amiga a tranquilizou, são animais noturnos, que se alimentam de insetos e frutas, marsupiais inofensivos, a despeito do aspecto muitas vezes assustador.
No dia seguinte, Celina sentou-se próximo do jasmineiro e não conseguiu sentir nenhum perfume. Era como se a árvore tivesse morrido em verde.
Caminhou lentamente para perto das outras plantas: as damas-da-noite, as gardênias, a lavanda, o manacá-de-cheiro, e até mesmo a roseira, todas haviam perdido o perfume.
A doutora Marcela descartou a anosmia como um sintoma de menopausa, e prescreveu uma fórmula manipulada. Misael pediu para a sua secretária agendar uma consulta com o doutor Sébastien Olivier, um renomado psiquiatra, que prescreveu um remédio tarja preta, e garantiu que ela teria sono profundo e tranquilo doravante.
Celina falou do bicho para o pastor, numa tarde de orações na igreja. O homem engravatado considerou que aquilo era um sinal, a força do mal rondava aquela casa e eram necessárias muitas orações. Ordenou que “O demônio do meio-dia” e todos os outros livros com referências ao demônio fossem queimados, e as cinzas guardadas para uma cerimônia em rio que ele iria organizar.
Em outra noite, Celina sonhou que ela era a moça comprometida do filme, e que aceitava o convite do estranho Frank Slade, para dançar o tango.
Onde ficam as cercas, por vezes invisíveis que separam a virtude e o vício? Quantas vezes o sucesso ou o fracasso, a felicidade ou a tristeza, a derrota ou a vitória, a excitação ou o tédio, o prazer ou a dor, a vida ou a morte, estão separadas pela mísera distância de “una cabeza”?
Se não há erro no tango, o maior erro na vida é não vivê-la. Então ela tomou a decisão: revirou agendas e anotados até encontrar o contato daquele pretendente galanteador, que lhe prometera emoções fortes.
A cidade se preparava para a grande festa popular, com barulhos e foguetórios. Misael estava por demais ocupado na campanha para federal.
Por una cabeza, seria a oportunidade de desatar os nós, de jogar no rio do pastor, não as cinzas do livro queimado, mas as fórmulas da doutora Marcela, e os tarjas-pretas do doutor Sébastien, de expulsar de vez aquele bicho horrendo que passeava no seu jardim, de voltar a sentir os cheiros da vida. E assim, ela arrumou malas, e avisou a todos que iria para um retiro.
Na manhã seguinte todos os noticiários estampavam na tela, a grande tragédia. O chefe da polícia informava que um incêndio assim devastador não era comum acontecer de maneira espontânea, em uma residência. Os bombeiros acabavam de resgatar os corpos de Misael e das crianças. Os peritos colhiam material para saber se o incêndio havia ocorrido por causa espontânea, ou se havia sido provocado.
Diante do doutor Sébastien Olivier, Celina não consegui responder nenhuma das cinco perguntas que ele lhe fez. Nem mesmo a última: “você está viva, ou está morta?



Que texto lindo! Muito bem escrito e descrito! Li e reli, e pensava....me lembra alguns contos de Mia Couto, a quem também admiro muito. E, embora seja uma obra de ficção, o cenário nos parece tão familiar...Amei o fechamento do texto! Parabéns!
Que texto incrivelmente lúcido é sensível, dr Jesus, como olhar até o mais profundo da alma de alguém. Parabéns, adoro seus textos!!