Os sons do silêncio
Saí do cinema, naquela noite interiorana de Mirassol, com o refrão da música, que grudava como um chiclete, até as raízes mais profundas dos meus cabelos.
Encantado eu estava, com a comédia romântica, estrelada por Dustin Hoffman, Anne Bancroft e Katharine Ross, bem ao gosto de um adolescente de 15 anos.
No filme “The Graduate”, traduzido, penso que impropriamente, para “A Primeira Noite de um Homem”. A história era trivial, mas a voz aveludada de Art Garfunkel, e a batida forte de Paul Simon mostravam-me que havia algo de enigmático naquele refrão de “The sound of silence”, e isto custava-me compreender.
Na letra da canção, a escuridão era uma velha amiga. Pessoas falando sem dizer nada, e outras pessoas ouvindo sem escutar, mostravam-me que havia algo de muito errado naquela arrumação.
Todos corriam alucinados para consumir o “Deus néon”, enquanto o silêncio crescia entre as pessoas, como um câncer.
O paradoxal som do silêncio, que só muito mais tarde eu fui entender, não era a ausência de som, mas a falta de conexões verdadeiras entre as pessoas. O silêncio dos seres perdidos entre “dez mil pessoas, talvez mais...” As palavras não ditas, mas que ficaram escritas nas paredes do metrô.
Dirijo hoje pela avenida Paulista em ritmo de tartaruga, posto que não é possível ser de outra forma. O Deus néon continua ali, e todos querem vê-lo. Invadiu todas as fachadas, e convida para se consumir todo tipo de coisas, o mais rápido possível, pois tudo pode durar só até sábado. O Deus neón brilha, e as pessoas têm pressa.
Na rua Cardeal um ônibus fantasiado de Deus néon obriga-me a fazer uma manobra para não ser atingido. Um grupo de turistas branquelos quase é atropelado por um entregador de motocicleta, que joga um xingamento ao vento, faz um gesto obsceno com os dedos, e continua em disparada para fazer a enésima entrega.
Estaciono no posto de combustível, e pela terceira vez nesta semana, me é apresentada a caixinha para eu depositar ali um trocado para o Deus néon de alguém. Contribuo a contragosto de novo.
O barulho dos motores, e das buzinas preenche os espaços do silêncio que viram câncer. O amigo que não vejo faz quatro anos, manda-me uma figurinha dançante e iluminada no smartfone. Convido-o para um café, mas ele não pode, talvez mais adiante, quem sabe, no próximo ano.
Sobre a mesa, recebo um envelope com um cartão de árvores estilizadas e um velho de barba branca, com roupa vermelha. Só de pensar, sinto calor e ligo o ar-condicionado, por instinto. Na entrada do condomínio, há um convite para o concurso da casa mais iluminada.
Penso e repenso. Que vontade tenho de apagar todas as luzes, uma depois da outra, deitar-me sobre a relva, e conversar com as estrelas, ouvindo o som dos silêncios.



Que lindo e delicado texto, Jesus! Que bela analogia com a falta de comunicação atual, tão barulhenta e que muitas vezes é vazia! Bela lembrança de um filme tão marcante e maravilhoso!
Dr. Jesus, seus escritos são luzes de verdade em meio a tanta escuridão. Obrigada. Beijo